PARANÁ

Paranaense expulso da escola por perder a visão se torna primeiro juiz cego na Justiça do Trabalho

Ele perdeu a visão quando era criança, após dois erros médicos e afirma que injustiças que sofreu ao longo da vida o motivaram a cursar Direito.
16 de agosto de 2024
Compartilhe

O paranaense Márcio Aparecido da Cruz Germano da Silva, de Maringá, no norte do Paraná, se tornou o primeiro juiz cego a atuar na Justiça do Trabalho no Brasil.

Aos 44 anos, o magistrado relembrou ao g1 como foi a trajetória até tomar posse no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, em São Paulo.

Ele conta que, ainda criança, dois erros médicos mudaram a vida dele para sempre.

Aos quatro anos, após a família se mudar para Curitiba, Silva recebeu uma alta dosagem de um medicamento ao qual era alérgico. Como sequela, desenvolveu perda parcial da visão do olho esquerdo.

A família, então, se mudou para Sarandi, cidade ao lado de Maringá. Cerca de quatro anos depois, Silva, ainda criança, perdeu a visão do outro olho.

Expulso da escola

 

Ao perder totalmente a visão, a escola que frequentava o expulsou sob o argumento de não ter estrutura para ensiná-lo. Silva ficou três anos sem frequentar uma escola.

Anos depois, Silva ganhou uma bolsa de estudos para fazer um cursinho pré-vestibular em uma instituição privada. Ele conta que nesse momento sofreu os primeiros impactos da desigualdade.

O juiz afirma que a quantidade de horas de estudo na instituição privada era muito maior do que na escola pública de onde veio.

"Ali me deu um certo medo de não conseguir a aprovação no vestibular, pois, apesar da boa vontade do colégio, ele não tinha uma impressora em braile e eles não conseguiram uma parceria para fazer esse material em tempo hábil”, diz.

Após três tentativas, Silva conseguiu a aprovação e se tornou o primeiro aluno com deficiência visual a cursar Direito na Universidade Estadual de Maringá (UEM).

O magistrado relembra que as situações de injustiças que viveu acabaram colocando o Direito como a única escolha possível.

Silva relembra que, já na graduação, novamente se deu conta de que seria muito difícil concluir os estudos. Além da dificuldade de acesso a materiais em braile, o tamanho dos livros jurídicos o preocupava.

“Os livros de Direito são muito extensos. O professor ia fazendo aulas expositivas e quando chegava a hora de estudar para a prova, no final do bimestre, eram 300 páginas de leitura em relação às quais eu não tinha acesso. Eu dependia da leitura dos meus amigos”, conta.

 

O poder da representatividade

 

Ainda no primeiro ano da graduação, Silva conheceu o desembargador Ricardo Tadeu, primeira pessoa cega a integrar o Ministério Público do Trabalho.

Para o juiz, conhecer uma pessoa que também tem uma deficiência atuando no Judiciário foi fundamental para aprender lições valiosas.

O maior aprendizado, destaca, foi que utilizar todas as ferramentas possíveis para trabalhar não tira o mérito das conquistas. Por isso, a pessoa com deficiência não deve sentir medo ou vergonha.

Foi com essa motivação que Silva se inscreveu no concurso público para analista judiciário. Com o computador, os estudos ficaram mais fáceis.

Mesmo assim, o acesso aos livros em braile ainda era um problema, já que as obras não eram comercializadas. Ele dependia da doação das editoras.

Apesar das adversidades, Silva se tornou o primeiro juiz de primeiro grau com cegueira total no Brasil. A vaga na Justiça trabalhista foi disputada com quase 17 mil pessoas.

O dia a dia de trabalho

 

O juiz afirma que a tecnologia é uma aliada na hora do trabalho no Tribunal.

“Eu faço o uso do computador de forma autônoma, então, eu consigo escrever o que eu quero de forma autônoma. As minhas minutas de voto, as propostas de decisão eu escrevo autonomamente”, conta.

Para agilizar o trabalho, o juiz tem o apoio de uma estagiária de pós-graduação.

“Por exemplo, eu preciso procurar um cartão-ponto em um processo de quatro mil páginas e conferir uma semana específica. Com o leitor de telas eu vou conseguir isso, mas vou levar 15 minutos e eu tenho um monte de voto para fazer. Com um mouse e enxergando, ela vai levar dois minutos. Então ela me passa esse dado e eu faço a qualificação jurídica dele”, explica.

O magistrado diz ter aprendido que utilizar um apoio, tecnológico ou humano, não tira o mérito ou a produtividade da pessoa com deficiência em realizar as coisas.

Para Silva, situações como essa demonstram o quanto a convivência entre pessoas com e sem deficiência é fundamental para quebrar preconceitos e barreiras.

Ciente de que será a primeira pessoa com deficiência a ocupar o cargo, o magistrado garante que não quer ser o único. De acordo com ele, houve um aumento no número de pessoas cegas atuando no Judiciário, mas a presença pode ser ainda maior.

O juiz incentiva pessoas com deficiência a acreditar, sim, que é possível e a não desistirem dos sonhos:

"O mais importante de tudo é encontrar o seu método e ter muita decisão na escolha. Toda pessoa com deficiência pode encontrar o seu caminho, desde que seja uma decisão sincera e que entenda que é um projeto e, para conquistá-lo, muitas vezes será preciso renunciar algumas coisas."

Por G1 PR

 

Leia também