Especialistas alertam para a necessidade de acolhimento e espaços de diálogo nas famílias e escolas

Há pouco mais de um mês, as escolas da rede estadual e privada do estado de São Paulo passaram a receber 100% de seus estudantes, sem revezamento de alunos e sem o distanciamento de um metro entre as carteiras.

Apesar de as atividades escolares buscarem o retorno à normalidade, os estudantes que chegam às escolas agora são diferentes daqueles que foram para casa no início da pandemia.

A maior parte das redes estaduais de ensino retomaram atividades presenciais. Além de São Paulo, outros estados autorizaram o retorno de 100% dos alunos às salas de aula, como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Amazonas e Mato Grosso.

Algumas unidades de ensino e até municípios inteiros têm, porém, suspendido atividades após a detecção de casos de Covid-19 entre estudantes.

Mas outro problema de saúde também preocupa. De acordo com levantamento da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), estima-se que, no mundo todo, um a cada sete indivíduos com idade entre 10 e 19 anos viva com algum transtorno mental diagnosticado.

No Brasil, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Tecnologia Ipec a pedido da Pfizer mostrou que os jovens foram os mais afetados por problemas mentais durante a pandemia.

Silmara Meireles, psicóloga e integrante da Associação pela Saúde Emocional de Crianças (Asec Brasil/Movimento Saber Lidar), observa que muitas crianças e adolescentes sentiram emocionalmente as restrições de contato a ponto de terem a saúde mental comprometida.

“As crianças e os jovens sofreram muito com o impacto da pandemia por conta do isolamento social, pelo fato de não estarem na escola”, analisa.

A psicóloga também cita o crescimento do número de estudantes com transtornos de ansiedade e de depressão.

Um estudo realizado no final de 2020 por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) constatou que estudantes do 9º do Ensino Fundamental e do Ensino Médio em escolas públicas estaduais e municipais das periferias de São Paulo e Guarulhos foram diagnosticados com depressão (10,5%) e ansiedade (47,5%).

São diversos os fatores que podem gerar essas condições nas crianças e adolescentes, como as aulas remotas, a falta de interação com pessoas da mesma faixa etária, a convivência com adultos estressados em casa — ou em home office ou se colocando em risco para trabalhar.

“Temos vários cenários que causaram impacto nesse período de isolamento, e esses impactos emocionais têm efeitos que vão aparecer agora [presencialmente] no ambiente escolar”, afirma Silmara Meireles.

Habilidades interpessoais comprometidas

A privação de relacionamentos interpessoais afetou não somente a saúde mental dos jovens, mas também as competências a eles relacionadas, como respeito, empatia e confiança. É o que pontua Celso Lopes, psiquiatra e fundador do Programa Semente, de soluções em educação socioemocional.

“Elas [as competências] foram impactadas por uma razão muito simples: os adolescentes foram privados do relacionamento interpessoal. Isso significa que eles estão um pouco infantilizados. Ou seja, o que seria cobrado por ter 15 [anos] ele não consegue realizar porque não teve dois anos de aprendizado”, comenta.

Outros atributos de socialização que podem ter sido prejudicados são saber se aproximar para se apresentar para alguém desconhecido, ser assertivo, se posicionar, perceber emoções positivas e se entusiasmar.

Ainda assim, Lopes ressalta que esse aprendizado pode ser recuperado, assim como os conteúdos curriculares, desde que haja um direcionamento para isso.

Ainda que os alunos estejam ávidos pela interação social, ela gera muitas incertezas que podem causar ansiedade.

“Se você está menos desenvolvido para enfrentar os ambientes sociais, quando esse enfrentamento acontece, porque tem que acontecer, isso gera uma incerteza. E como percebemos essa incerteza? Por meio dos sentimentos da família do medo, como preocupação, ansiedade”, contextualiza Lopes.

O retorno presencial na prática

Fábio de Lima, professor de filosofia da Escola Estadual Professor Joaquim Luiz de Brito, na zona norte de São Paulo, relata que os alunos voltaram às aulas presenciais com saudades da interação com colegas e professores. Mesmo assim, a piora da saúde mental foi trazida pelos estudantes.

“Os alunos falaram que estavam até indo para a escola justamente para tentar resolver essa situação e ter contato com as pessoas, porque eles estavam se sentindo muito deprimidos e sentindo também uma ansiedade”, relata o professor.

Uma aluna de 16 anos do 1º ano do Ensino Médio chegou a compartilhar que estava sofrendo ataques de pânico por conta da pandemia, mas que a família não a entendia e não havia procurado ajuda profissional.

O professor começou a trabalhar a meditação em 2012 com os alunos da 3ª série do Ensino Médio ao abordar filósofos que costumavam praticá-la. Com o passar dos anos, a atividade foi expandida para as outras séries até se tornar um projeto semanal.

A ideia inicial era promover foco e atenção para os exames vestibulares, mas a escola percebeu que a prática também ajudava em outros aspectos, como o combate à violência. “Com a meditação, a pessoa se torna mais pacífica, ela pensa mais naquilo que fala, se torna menos impulsiva”, diz o professor.

Em decorrência da pandemia, o projeto foi interrompido. Com o retorno às aulas presenciais, além de trabalhar a concentração e a memória dos estudantes, os momentos meditativos também servem como espaço para discussão da saúde mental.

“Minha primeira questão com eles [os alunos] na sala de aula foi a adaptação. A partir do momento em que estamos nos adaptando, vemos o que precisa ser trabalhado, e a saúde mental dos alunos veio abalada”, pontua Lima.

As questões de saúde mental não aparecem somente entre crianças maiores e adolescentes. A professora Maristela Iuliano Meira dá aula a crianças de cinco a seis anos na Escola Municipal Infantil Saci Pererê, em Taboão da Serra (Grande São Paulo), e conta que os alunos voltaram ansiosos e agitados.

“Com o confinamento, os pais perderam a paciência com seus filhos. Gritaram muito, deram celulares para mantê-los quietos e não ‘atrapalharem’ os seus trabalhos em casa, ficaram desempregados e acabaram ‘descontando’ as suas frustrações nos pequenos”, afirma.

Prestes a iniciar o Ensino Fundamental, as crianças têm demonstrado dificuldade para se relacionarem entre pares. “Como conviveram muito tempo com pessoas adultas, elas têm medo e receio de se aproximarem de outras crianças”, conta Maristela.

Quando um professor nota algo de diferente no comportamento da criança, a orientação é conversar com os responsáveis para entender se a dificuldade de socialização é normal ou se é um comportamento atípico.

Além disso, para apoiar as famílias nessa retomada, a escola fez um trabalho de orientação aos responsáveis com recomendações para o retorno e conscientização da importância da aprendizagem na primeira infância.

A forma de lidar com sentimentos e emoções

Lopes explica que é muito importante entender que ter sentimentos não é o mesmo que ter uma doença, mas nosso modo de perceber e processar as emoções pode ficar doente.

“Os sentimentos fazem parte dos nossos instrumentos de percepção do que está acontecendo ao nosso redor. Se tem incerteza, vamos ter um padrão ansioso. Se houve perdas, vamos ter o padrão da tristeza. Se houve injustiça, vamos ter padrões da raiva”, exemplifica o psiquiatra.

Nesses casos, o que acontece é o sentimento ser lido como uma doença da qual é preciso fugir. “Precisamos dar nome e perceber que ela [a ansiedade] passa, que boa parte do que me aflige não está acontecendo, mas é o que eu imagino e, a partir disso, as coisas tendem a voltar a uma normalidade”, afirma Lopes.

Ainda assim, algumas pessoas terão mais dificuldade para processar os sentimentos, mesmo em um ambiente mais cooperativo.

“O estressor dessa dificuldade acaba acordando genes que predispõem doenças como a depressão e a ansiedade, e pode-se abrir um quadro que exige um tratamento profissional.”

Necessidade de acolhimento e diálogo

Silmara Meireles reforça a importância de não se naturalizar o impacto emocional da pandemia em crianças e adolescentes. Isso significa que um comportamento destoante pode não ser só uma fase.

“Às vezes, as crianças ficam mais agressivas e só entendemos isso como um comportamento de desobediência, quando também pode mostrar o desencadeamento de um transtorno”, diz a psicóloga.

Para ela, é importante que tanto mães, pais e responsáveis quanto as escolas abram espaços de diálogo com os estudantes para acolhê-los e apoiá-los neste retorno, muito esperado por eles, mas com muitas restrições, inseguranças e perdas.

“Todos que estão dentro desse ambiente escolar precisarão ser mais cuidadosos uns com os outros, mais generosos nas relações e mais pacientes”, ressalta.

Enquetes realizadas com jovens e adolescentes nas redes sociais pelo U-Report Brasil, programa de interação também do Unicef, constatou que 72% sentiram a necessidade de pedir ajuda em relação a sua saúde mental durante a pandemia, mas 41% não recorreram a ninguém.

Ações para apoiar as escolas em São Paulo

Chefe de gabinete da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, Henrique Pimentel afirma que a saúde mental de alunos, professores e servidores é uma preocupação da pasta desde o retorno às atividades presenciais e importante para a retomada.

A secretaria desenvolveu o programa Conviva SP, que, entre outras ações, oferece suporte emocional para estudantes, professores e servidores. Também lançou o programa Psicólogos na Educação, que coloca profissionais da psicologia à disposição das instituições de ensino da rede estadual.

“A escola organiza qual é o melhor modelo de atendimento, se é um atendimento individualizado, se é uma roda de conversa sobre algo que aconteceu que está afetando a rotina daquela turma, e o psicólogo faz uma videochamada com aquela turma através de uma plataforma própria”, diz Pimentel.

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